RECONCILIAÇÃO – Uma revolta, uma mesa, um pai… dois filhos.

A festa está acontecendo. O filho está sentado à mesa, tentando entender o absurdo de amor com o qual fora acolhido. Se coloque agora no lugar do filho mais novo, se coloque no lugar do perdoado. Olhe pro seu pai. Veja como ele brilha os olhos e enche a boca pra dizer: “Meu filho voltou”. Olhe pro canto, veja os seus amigos que há anos não viam você. Olha que alegria! Veja a sonoridade dessa banda tocando músicas alegres. Quanta dança! Sinta o cheirinho da carne assando; do arroz feito com bastante alho; do cheirinho da farofa e do feijão tropeiro. Sinta esse cheirinho de doce de mamão, doce de goiaba, doce de côco. Tá vendo tudo isso? Ops! O carneiro assado está quase no ponto. Hummm, que delícia! Veja as taças postas na mesa, vejam os trabalhadores de seu pai empenhados para começarmos a festa. Por que de tudo isso? Você voltou! Cheire seu pulso. Lembra do perfume que você usava? Pois é, é o mesmo, lembra? Olha o anel em seus dedos, olha essa roupa que agora você está vestindo. Meu Deus! Seu pai te ama demais.

Opa! Algo está acontecendo ali fora. Vixe! O cerco fechou… É teu irmão mais velho. Ele não está em clima de festa. Está sujo, suado, com foice, enxada, facão e mais utensílios nas mãos, mas mais do que isso, ele está enfurecido. Ele não aceita o teu retorno. Espera… O seu pai se levantou, foi ter com ele…

A parábola do filho pródigo haveria de ter um dilema após a belíssima narrativa pós-reconciliação com o pai. Por quê? Porque o ambiente da reconciliação com Deus sempre exigirá um capítulo a mais; sempre haverá uma reconciliação com as relações horizontais. Não existe relação plena com Deus se não houver uma relação vertical e efeitos horizontais. “Ora como posso amar a Deus que não vejo e odiar ao meu irmão que vejo?” – é uma das inquietações expressadas por João, o apóstolo.

A relação com Deus perpassa pela relação com o próximo; com o outro. Nenhuma relação com Deus será completa se não houver relações entre os seres humanos; relação afetuosa, consistente e fraterna.

Nesse “último devocional” dessa sequência sobre a parábola do filho pródigo, falaremos sobre o filho mais velho e algumas questões interessantes em seu comportamento.

Dentre tantas coisas que acho interessante no comportamento do filho mais velho na parábola do filho pródigo é o fato dele sequer entrar em casa. Ele ouviu a músicas e toda a movimentação da festa. Imagino, ele pensando: “Ué. Papai não dança mais há anos. O que será que está acontecendo? Oh fulano, vem aqui. O que é que tá havendo ali mesmo hein? Um dos trabalhadores lhe informou tudo o que estava acontecendo, então o filho fica irado, indignado, com todos os sentimentos adversos ao seu irmão aflorados, se recusando entrar em casa. O pai vai ao seu encontro: “Filho, venha. Vamos entrar. Tome um banho, vista-se com aquela roupa bonita que só você tem. Vamos comer um churrasco maravilhoso, uma comida excelente, eu mandei pegar aquele vinho que você tanto gosta”.  Ao que filho responde: “O senhor está de brincadeira não é mesmo, meu pai? Pai, há quantos eu estou aqui trabalhando, ralando, cuidando do que é seu, eu nunca pude fazer uma festança com os meus amigos para comer um churrasco, jogar um truco, beber meus vinhos que estão no armário de coleção…? E, esse moleque, esse TEU FILHO, que experimentou todas as mulheres, prazeres, comidas, bebidas, luxos lá fora, às custas do nosso trabalho, e tu faz essa festa toda? Que conversa é essa, meu pai? Nesse momento, o pai com o rosto num misto de rugas, marcas da vida, alegria de retorno e compaixão pelo filho mais velho, diz: “Meu filho, eu estou aqui. Você é meu filhão. Nada mudou na nossa relação. Tudo que é meu é seu, apesar de você só pensar em sair com amigos, mas olhe pra essas terras. Olhe pra todo esse patrimônio. Tudo isso continua sendo teu. Todavia, meu filho, o TEU IRMÃO, retornou. Teu irmão se arrebentou, mas ele voltou. Se fosse você quem tivesse partido e voltado arrebentado como eu o vi mais cedo, eu te acolheria do mesmo modo. Não transforme a minha bondade e meu amor em exclusividade da sua vontade. O fato de eu os amar, com meu amor de pai, não pode produzir em vocês mérito algum. Eu os amo porque simplesmente os amo. Ele não é ‘esse teu filho’ como você se referiu. Ele é TEU IRMÃO. Entre! Vamos nos alegrar. Venha fechar o ciclo da reconciliação”.

O mais interessante é que tem uma coisa nessa parábola que me deixa “encasquetado”. Ela acaba aqui. Ela é encerrada e Jesus não nos diz se o filho mais velho entrou ou não. Eis o vácuo da história. Ficou em aberto.

Assim, eu gosto de pensar que o fato dela ter ficado aberta é proposital. E por que Jesus a deixaria em aberto? Penso que pelo fato de a gente ser os protagonistas que darão “Norte” dessa história.

Ademais, eu quero sublinhar alguns pontos. O principal deles é o fato daquele filho mais velho estar com o seu amor próprio ferido.

Em 1977, Tom Werneck e Reinhard Grasse escreveram um livro com o título “Treinamento da Argumentação”. Nessa obra, os autores nos deram conta de algo que cai muito bem nesse ponto da nossa reflexão:

“O amor-próprio ferido, todavia, redunda automaticamente em fuga. Quem é tratado com falta de consideração e quem se sente humilhado, ou torna-se agressivo ou alheia-se discreta e silenciosamente. Agressão é fuga para frente, é investida. Ela é um meio de chamar a atenção e forçar a consideração que não foi tributada espontaneamente. O oposto, o alheamento, a fuga para o próprio interior, não significa senão que o interlocutor desistiu de qualquer esforço para ser devidamente respeitado. Esses dois tipos de reação constituem uma péssima base para um diálogo. Os argumentos apresentados a um parceiro agressivo, ou a interiormente melindrado, têm pouquíssimas chances para encontrar crédito e receptividade. Por isso é sobremodo importante ter em mente que não basta soltar argumentos no espaço; é preciso também alicerça-los com motivações. O interlocutor deve sentir que está sendo levado a sério, deve notar que não tencionamos apenas para transmitir-lhe uma mensagem, mas que também estamos dispostos a ouvir-lhe os argumentos”. (Grifos e sublinhes meus)

Quando eu li isso, fui arrebatado à parábola do filho pródigo, especialmente com o que aconteceu com o filho mais velho. O filho mais velho da parábola do filho pródigo se sentiu menosprezado; se sentiu desvalorizado; se sentiu acanhado; se sentiu apunhalado. Afinal, se olharmos pela ótica dos méritos, aquele rapaz jamais saíra de casa, estando sempre com seu pai, firme nos trabalhos, dia após dia. O amor próprio daquele rapaz estava ferido. E como exteriorizou T. Werneck e R. Grasse, ele tinha dois caminhos, se tornar agressivo ou acanhadamente silenciado em si. No caso do filho mais velho da parábola, ele tomou as duas atitudes. Inicialmente, ele se acanha, fica quieto. Observando. O pai, todavia, conhecendo seu filho, sabendo o que lhe passava ao coração, foi ter com ele. O filho estava com raiva do seu pai, porém, não podendo derramar sua indignação em cima do seu pai, por questões óbvias de honra, ele tenta dissociar sua chateação com o pai, fazendo “cortes” nos laços com o seu irmão; “… esse TEU filho”. Num primeiro momento o filho fica enclausurado em si mesmo, em seguida ele se torna agressivo, não diretamente com o pai, mas tenta atingir o pai como sendo um pai injusto ao acolher o filho que tudo gastara ao passo que ele era o “filho exemplar”.

O pai, por sua vez, faz algo interessante. Ele lança o garoto dentro da importância daquilo tudo. Pega o garoto e o remete pro núcleo da sobriedade, apesar de o filho mais velho não querer a presença do pai em suas alegrias, pois queria usufruir dos benefícios dos seus bens apenas com os seus amigos, o pai, todavia, relembra quem ele é; relembra que apesar de tudo, ele era dono, ele sempre estava com ele. O pai faz aquele filho se sentir importante, participante de toda aquela ação. Entretanto, para o pai, aquele momento não era momento de se contabilizar o que se perdeu, até porque, provavelmente, aqueles anos com o filho mais novo distante, deveria ter sido anos de muita prosperidade. A posse de bens só tem significado para a celebração da vida. “Esse teu irmão estava morto e reviveu”. O pai faz com que esse filho mais velho se sentisse, não um mero expectador dos bens do pai, mas um protagonista que selaria a reconciliação. Nessa hora, a parábola termina.

Eu tenho quase vinte e um anos de conversão a Cristo Jesus. E em todos esses anos de minha peregrinação espiritual, já ouvi incontáveis pregações, mensagens, reflexões, menções dessa parábola. Uma das que mais me chamam a atenção – e que por sinal é muito aludida – é que esse irmão mais velho representa aqueles irmãos mais velhos na “igreja” (instituição com CNPJ, templo, aluguel, energia, rituais, eventos e etc). Quando versam essa parábola a esse evento de atuação dos irmãos, eles dizem que o filho mais jovem é aquele novo convertido que chegou só os “pedaços” na “igreja”, que “se converteu” no último domingo e que os mais velhos, os mais antigos de ministérios, ficam enciumados por conta do pastor dispensar uma atenção maior, por isso acabam não querendo participar mais de algumas atividades na “igreja”. É uma aplicação interessante, porém muito rasinha, convenhamos. Essa explicação tenta apenas compreender problemas de “má gestão das ovelhas” com sintomas básicos de distanciamento, mas, não deixa de ser uma aplicação e uma compreensão. Eu, todavia, gosto de pensar nessa parábola, sobretudo, como uma coisa um pouco “mais macro”. Como por exemplo, a nossa relação geral com todos os irmãos na vida, onde nós somos o irmão mais velho – como eu já disse anteriormente pelo fato de a parábola ficar em aberto – onde precisamos prezar pela reconciliação, pois a parábola, fala única exclusivamente sobre reconciliação.

Tentarei ser mais claro. O pai dos garotos é o Pai celestial, o Deus todo poderoso. O filho mais jovem (o pródigo) é todo aquele que se sabe pecador, caído, que se volta para Deus Pai, apesar de estar fora dos portões do nosso gueto; nossa agremiação religiosa, aqueles que de forma similar àquela mulher siro fenícia, que pouco queria saber se Jesus veio para os da casa de Israel, ela queria o que era de Deus, ainda que se catasse as migalhas de pão que caísse no chão. A mulher siro fenícia não sabia nada da teologia judaica, ela queria o amor que curava enfermos, expulsava demônios, sobretudo, curaria sua filha e lhe desse um destino. E existem os que são semelhantes ao filho mais velho. Nós, os cristãos confessos, os “velhos” de igreja; os cheios de presunções acerca de Deus, que estamos “trabalhando” pra Deus de dia e noite, que somos, portanto, os cheios da razão em nome da “moralidade” e dos “saberes”, podemos ser conhecidos como o filho mais velho (também).

Sim! Nós somos o filho mais novo, o pródigo, mas também somos o filho mais velho em alguns (ou quase sempre) momentos da jornada. E mais, temos que ser como o pai daqueles rapazes. Temos que superar as nossas quedas; nossas crises de ciúmes e sermos agentes que chama as relações desajustadas pro nivelamento da Graça de Deus. A Graça de Deus nivela a todos. Somente a mesa do Senhor nos deixa olhar com a mesma estatura uns para os outros.

Eu perguntei, certa vez, em reflexão-oração a Deus: “Pai, porque o Senhor não terminou aquela parábola?”. E no meu coração ardeu a mensagem: “É você quem termina a parábola. É você que precisa entrar e sentar à mesa. Um dia você foi – podendo ainda tornar a ser o filho rebelado que volta perdoado – ,hoje você está com o amor próprio ferido, todavia, você precisa entrar na casa. Seu coração está magoado com o seu pai porque dividiu os bens e deu a ele. Você sente inveja dele que viajou, porque você queria fazer isso também, mas não teve coragem, antes, testemunhou seu pai chorando noite após noite, dia após dia. Foi você quem viu o semblante e o humor do seu pai desfalecido, mas ao invés de ter compaixão do seu pai naquela situação, você trabalhou pra mostrar que era melhor que seu irmão. Você é como Caim, que oferta a Deus olhando pra oferta do seu irmão, se comparando com seu irmão. Você é como os trabalhadores da primeira hora, que no fim do dia, ao acertar o salário com o seu senhor, o valor acordado, chama o senhor de injusto por ter dado o mesmo valor aos que chegaram na última hora. Você, está tendo a oportunidade de se arrepender do seu pecado também. Você não foi com as pernas pra terras distantes, mas foi com o coração se distanciar das geografias do amor e da reconciliação; foi pro trabalho da família pra se encher de autojustificação. Você acha que pregar, ensinar, tocar um instrumento, ministrar um louvor num culto ou num evento, aconselhar pessoas te faz melhor. Não, Rafael. Isso não te faz melhore que nada e nem ninguém. Você é como a dracma perdida, tem um imenso valor, está dentro de casa, mas está perdido como a dracma estava. O pai está chacoalhando você quando ele diz: ‘Entre! Teu irmão voltou! Veja como ele mudou. Veja como ele está arrependido. Aprenda com ele o que é descer ao pó e ter uma consciência plena de arrependimento; de serviço. Venha meu filho. Venha colocar seu anel também, suas vestes também, suas sandálias também. Você é meu primogênito e, na minha mesa, tudo só fará sentido se você estará nela. Logo logo, eu morrerei meu filho e eu preciso que você tenha o mesmo coração que o meu, assim como eu acolhi o seu irmão, acolha-o também. Você pensou ter perdido um irmão. Eu pensei ter perdido um filho, mas ambos ganhamos a oportunidade de celebrarmos a vida com quem reviveu. Vem pra mesa, meu filho. Eu quero você ao meu lado para que o seu irmão sinta o amor dessa casa’. Dessa forma, Rafael, você se encontra, como o filho mais velho, cheio de si, cheio de razão, cheio de “ofertas de Caim” para trazer a mim. Rafael, entenda, misericórdia é o que quero, e não sacrifícios”.

Quando essa mensagem queimou no meu coração, então, eu cai em prantos. Minhas madrugadas sempre foram recheadas de pesadelos – noites mal dormidas – ou então de intensas leituras e orações regadas de lágrimas. E foi numa dessas tantas madrugadas que essa mensagem começou a queimar no meu peito. Isso faz alguns anos, todavia, eu busco viver essa verdade. É difícil aceitar que somos o filho mais velho. Queremos ser abraçados como o filho mais novo. Queremos a aceitação e festa que nos acolhe. Todavia, a graça nos convida a reconciliarmos como o filho mais velho fora chamado.

A mesa será plena quando estiver o pai, o filho que voltou e o filho que resolve entrar.

Eu estou buscando entrar na casa a cada reconciliação que vejo o pai fazendo, se eu não entrar, eu vou deixar de aproveitar as danças, a comida, os cumprimentos, sobretudo, estarei perdendo a oportunidade de olhar nos olhos do meu irmão, aquele com quem dividi o mesmo quarto, corríamos jogando bola juntos quando éramos crianças. Eu preciso primeiro sentar á mesa. E eu sei que ao sentar à mesa, ainda que com o coração fechado, eu sei que vou reconhecer meu irmão naquele que está diante de mim. E mais, eu sei que ele terá uma ampla experiência de dor e labuta para me ensinar. Eu preciso aceitar a volta dele, afinal, a partir de amanhã, ele estará no campo comigo. Só não estará no campo comigo se eu não o aceitar, e se eu não o aceitar, uma vez que o meu pai já o aceitou, eu irei pegar minha parte da herança e irei fazer a viagem que ele já fez, assim, o ciclo se iniciará novamente. Então é melhor eu ouvir ele. É melhor eu aprender com as experiências dele. Papai não tem tempo a perder, em eventual saída minha, se eu me aventurar como meu irmão se aventurou, pode ser que quando eu voltar, papai não esteja mais aqui, como esteve para receber meu irmão.

“O que quereis que os homens dos façam, assim fazei-o vós também a eles”. (Mateus 7:12)

Pare e Pense!

Beijo santo,

// Fael Proskuneo //  

A GRAÇA DE DEUS – Me visita, me acolhe e me transforma. Aceite o banquete da vida.

Eu tenho um filho que irá completar 6 aninhos daqui dez dias. Isaac, quando nasceu, já no meu primeiro momento com ele, ao reconhecer a minha voz, agarrou na minha mão, abriu um dos olhinhos, e naquele momento, aquele olhar, aquele toque, aquele reconhecimento face a face, preambulou toda uma história. Nesses quase seis anos de convivência com o meu filho, eu o conheço bem. Apesar de ele estar crescendo, aprendendo muita coisa, todo dia é um capítulo novo, eu já o conheço muito bem. Eu sei os seus cacoetes, sei quando está com fome, sei quando ele quer alguma coisa, conheço a intenção do coraçãozinho dele sobre algumas coisas. Convivência faz isso. Nos faz conhecer a pessoa e todos os seus modos, traquejos; trejeitos; tropeços; expressões… A gente que é pai, sabe muito bem.

          O filho (pródigo) estava na lama, fétido, sujo, faminto, arrependido. Naquele momento em que ele se encontra consigo mesmo (caiu em si), decide criar uma narrativa; um discurso de retorno. Ele não sabia qual seria a reação do pai. Ele não sabia como seriam as coisas. Ele só sabia que havia pecado contra os céus; contra seu pai e não merecia ser chamado de filho mais, afinal, ele tratara seu pai como morto.  E o que é mais importante nisso tudo é o que ele decide fazer. Como ele reage ante a luz que recebeu quando caiu em si. Diz o texto:

“E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se”. (Lucas 15:20-24)

LEVANTANDO-SE… Aquele jovem se levantou. Quantas vezes é necessário a gente compreender isso: levantar-se?! Pois é. Aquele rapaz se levantou, teve uma atitude correta ante a luz que recebeu. Respondeu, de maneira adequada, à compreensão que obteve de sua queda. Diferentemente de Jonas que se levantou, mas não para ir para a grande cidade de Nínive, mas para fugir do propósito. Esse filho se levantou. Mesmo enlameado, se levantou. Estando fedido, se levantou. Estando em miséria de vida, se levantou. Estando caído, se levantou. Mesmo com um turbilhão de coisas passando em sua mente, se levantou.

O primeiro rompimento que ele teve que fazer foi consigo mesmo, contra aquilo que, eventualmente, poderia lhe paralisar ainda mais: o medo; a vergonha; a incerteza do retorno para casa do seu pai. É como aquele paralítico junto ao tanque de Betesda: “Levanta, toma o teu leito e anda…”. Esse jovem se levantou!

Depois dessa decisão de levantar, ele fez uma viagem correta. O seu destino era a casa do seu pai. Certa vez eu li Nelson Bomilcar, um compositor cristão, enfatizando: “A igreja que fere, precisa ser a igreja que cura”. Os ambientes de feridas, precisam ser os mesmos ambientes de cura. É preciso compreender isso o que digo, pois vou abrir um parêntese. Quando eu digo que os mesmos ambientes de feridas precisam ser os mesmos ambiente que curam é, sobretudo, um ambiente familiar e interno. Eu não estou dizendo – antes que alguém queira polemizar a temática – que pessoas que são vítimas de crimes, por exemplo, devam permanecer nos ambientes de abuso. Não! Não é isso. Estou falando de lugares onde feridas relacionais acontecem devido aos desagastes comuns inerentes aos relacionamentos. Por exemplo, quando eu sou o ofensor, eu preciso compreender que eu preciso retornar pra aquele lugar onde ofendi um amigo, um irmão, um familiar, para reaver a relação. Foi o que esse garoto fez. Ele voltou para o lugar de reconhecimento de sua queda, sobretudo, o lugar da sua cura; da sua restauração. Compreendido isso? Isto dito, fixemos a ideia que assim, como aquele garoto se levantou e se dirigiu para o lugar certo, assim devemos ser como cristãos; filhos de Deus; agentes do Reino de Deus na terra: Se levantar para o destino correto: O Pai.

A partir de agora, quando o filho chega na casa de seu pai, a sucessão de eventos que acontecem é o que há de mais belo em toda a escritura. Eu costumo dizer que eu só sou cristão por causa disso que acontece nesse trecho da história humana. O Evangelho só é o que é por causa desse acontecimento. Aqui está a síntese do coração de Deus; o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; o nosso Painho.

“Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou…”. O painho avistou aquele garoto, vindo de longe. Eu gosto de ficar pensando pelas entrelinhas das escrituras, assim, me ponho a pensar, como foi aquele momento. Talvez, o pai estava nos seus afazeres comuns e algum dos seus empregados o cutucou e disse: “Quem é aquele que vem ase aproximando das tuas terras?”, ou quem sabe ele estava contemplando os seus pastos, olhando sobre algumas medidas a serem tomadas quanto ao seu rebanho, ou quem sabe esperando algum vizinho de terras para fechar algum negócio. Todavia, gosto de pensar na imagem do pai, no fim de tarde. No cair da tarde, quando as atividades diárias caminhavam para as suas etapas finais, o pai colocando o seu olhar fito no horizonte, na estrada, na mesma estrada que um dia viu o filho partir. Talvez, aquela era uma atividade dolorida de todo entardecer; olhar pro horizonte e aguardar o retorno, afinal, o pai era um homem vivido, sabia da decisão louca de seu filho, sabia que aquilo não poderia ser pra sempre. Até que o pai o avistou. O pai reconheceu o seu filho. Como eu disse inicialmente, um pai conhece o seu filho. Aquele rapaz estava agora voltando para casa, todo sujo, fedido, machucado no corpo e na alma. Ele vinha na direção da casa do pai. As roupas já não são as mesmas; a barba está grande; o rosto traz algumas marcas, as mãos estão calejadas, está muito diferente, mas um pai reconhece o seu filho naquela “figura” que vem ao seu encontro. Pensaria o pai: “Eu dei banho nesse menino. Eu o ensinei a dar os primeiros passos. Ele tem um caminhado engraçadinho porque quando era criança, ele caiu, se machucou. Tem as pernas meio tortinhas. Eu reconheço não só o caminhado, mas eu reconheço meu filho. É ele. Eu o reconheceria em qualquer lugar do planeta. É o meu menino”.

“… compadecido dele…” – A palavra grega usada aqui é “splánchnon”, que significa “vísceras”, “entranhas”, ou seja, o pai visitou, com o seu coração, as misérias e dores daquele seu menino, daquele seu filho. Um filme se passa no coração desse pai. Antes mesmo que seu filho se aproximasse e dissesse algo, uma história já era contada no interior daquele pai. O pai pouco se importava com as ofensas de seu filho. Existe o mesmo filho com uma outra presença interna se aproximando dele. Ele não quer saber o que a vizinhança vai falar, ele quer seu filho de volta e ele se aproxima. Porém, o pai não aguenta ficar observando.

“… correndo, o abraçou, e beijou…” O amor daquele pai é exagerado. O amor daquele pai é absoluto; absurdamente apaixonado. Aquele pai corre, as lágrimas escorrem em seu rosto já envelhecido, marcado por uma vida, sobretudo de saudades. O pai corre. Inicialmente, o rapaz deve ter estranhado aquilo tudo, vendo seu velho pai correndo em sua direção. “Tem algo diferente” – deve ter pensando o garoto – “Papai está com o rosto encharcado de lágrimas”. Quando filho pensa em esboçar uma reação, de susto que fosse, o pai o abraça e o beija. Para o pai, pouco importa o cheiro de porcos que estava impregnado no rapaz – “Realmente, está um cheiro de animal que a nossa cultura não aprecia. Ele está com cheiro de porcos, está sujo, está maltrapilho. E daí? É o MEU MENINO; MEU FILHÃO. ELE VOLTOOOUUU”.O pai o beija. O beijo é selo de uma relação de amor. O beijo é o selo de todos os afetos. Ninguém sai por aí beijando qualquer um – pelo menos não é assim que se deve ser. O pai corre, o pai abraça, o pai beija. O pai não quer saber se o menino está fedendo, está sujo, está ferido… Pelo menos nesse primeiro momento não. “Vem cá, meu filho. Papai te ama tanto. Papai não aguentava mais de saudade, meu filho”.

Depois desse primeiro momento de reencontro. O filho ainda está engasgado. Ele começa o seu discurso: “Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho”. O pai interrompe! Percebam que a interrupção do pai se dá no momento em que ele iria clamar – conforme ele havia “ensaiado” ainda cuidando de porcos – “Me recebe com um dos teus trabalhadores”. Esse trecho do discurso foi interrompido por uma providência paterna. Por quê? Porque conquanto tenhamos de ter uma mentalidade de que precisamos ser servos, o Evangelho, Jesus, nos chama para sermos filhos. Enquanto aquele menino conta a sua “teologia do retorno”, o pai interrompe, como quem diz: “Meu filho, não precisa dizer nada. Ver você do jeito que você está, diante de mim, voltando pra casa… A sua viagem já me contou tudo. Não precisa se justificar mais”. E ordena aos seus empregados que tragam a melhor roupa, o anel da família, as sandálias para descansar os pés e um novilho para ser feito o churrasco da celebração do retorno.

Eu fico imaginando aquele rapaz, tendo que “aceitar” todo esse tratamento. Sim! Aceitar. Pra quem estava voltando pra casa com uma mentalidade de que sequer poderia ser recebido como filho novamente, pois, só queria tomar um banho, dormir nos dormitórios e comer um bocado de comida, agora, leva esse susto do amor, onde o seu lugar de filho lhe é restituído nessa velocidade, com essa veemência, com essa força que altera toda a agenda daquele fim de dia. Ele tem que aceitar. Um constrangimento lhe bate ao coração, afinal, ele sabia que àquela altura do campeonato, nem tudo seria festa plena. Existia uma situação gravíssima a ser resolvida. E ela estava prestes a acontecer.

E nós? Depois que caímos em nós mesmos, conseguimos perceber esse perdão que corre ao nosso encontro, que nos tira da condição de sujeira e nos colocar numa posição de reconciliação? Deus, em Cristo reconciliou consigo o mundo, não imputando as suas transgressões, antes nos tornou a mensagem da reconciliação, para que quem quer olhe para nós, leve um susto da Graça de Deus. (vide 2ª Co. 5:19) Estamos acolhendo essa verdade de bom grado, nos deixando que sejam trocadas as vestes, reafirmando nossa identidade, andando em novidade de vida e comendo da mesa da celebração do amor de Deus?

Precisamos, após fazermos essa viagem do retorno, perceber o Painho que corre ao nosso encontro, nos abraçando, nos beijando… Ele toma as providências. Deixemos ser cuidados pelos cuidados do Reino. Vamos tomar um banho? Vamos vestir a roupa de filho? Vamos calçar sandálias novas? Vamos nos assentar à mesa? Vamos?

 Empecilhos?

Contragostos?

Não-aceitação?

Olha pela janela. Tá vendo o sol se pondo? Consegue ver aquele ser robusto – feito Esaú chegando da caçada – se aproximando da casa? Pois é. Sempre terão os irmãos, que enquanto você estiver na mesa, eles vão criar confusão. Eles são guiados por méritos mesmo, não se preocupe. E você, eu, nós, teremos que lidar com isso. Eles sempre questionarão porque não se lava as mãos para comer; porque estamos assentados no lugar que é deles… Mas, tenha calma. Quem te colocou na mesa novamente, vai se levantar por alguns instantes e vai lá fora resolver esse assunto.

Vamos aproveitar? Consegue sentir o cheirinho da picanha saindo do forno? Pois é, o Papai mandou preparar pra gente. Comamos.

Continuaremos…

Pare e Pense!

// Fael Proskuneo //

Música que embala minhas reflexões, enquanto escrevo.

UM ENCONTRO INESPERADO – Um cantinho dentro de nós chamado ETERNIDADE.

Distantes do Pai… é quando estamos longe das relações de amor mais genuínas; quando estamos rodeados de pessoas que estão pouco importando para quem somos, afinal, só serviremos para cuidar dos porcos; somos vistos como escórias, como pouca coisa diante da vida. Estamos no fundo do poço, desejando comer as imundícies das imundícies. Distantes do Pai, o nosso travesseiro é a poça de lama, nosso cobertor é qualquer trapo que venha sobrar pelos cantos, nosso ambiente é atulhado dos odores mais pútridos que se possa conceber. Todavia, toda essa redoma de deterioração não significa que nossa mente, nossa consciência está de toda perdida. Existe um ambiente dentro de nós, que apesar de nossos abismos existenciais; apesar do abismo das vaidades que nos levaram para os abismos sociais, esse ambiente tem um canto intacto, mas que precisa receber uma luz para que o enxerguemos, e possamos ir para lá, buscar o aconchego da conversa que transcende os cacos da nossa existência. Esse lugar é um lugar no nosso espírito, esse lugar é fresta que liga nosso espírito com a nossa alma; esse lugar é a consciência. Aquele jovem, mesmo afundado nas lamas de suas decisões, houve um momento em que ele caiu nesse lugar; se percebeu ante a luz que o fazia se perceber e, sobretudo, o convocava para a vida novamente. O jovem caiu em si.

Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. (Lucas 15:17-19)

É interessante como o jovem, ao cair em si, ele puxa à sua memória o ambiente da casa de seu pai; trazendo o que lhe dá esperança. Mesmo ali, talvez numa noite fria, enlameado, fétido, faminto, ele se recorda da casa do pai. Ele se recorda das festas, das danças, dos trabalhos que são intensos, sobretudo, da fartura. Ele começa a puxar em suas lembranças, o quão farto é a mesa dos trabalhadores de seu pai, afinal, o pai não tinha escravos, mas trabalhadores que viviam de modo digno. O rapaz relembra os pés de manga; pés de amora; pés de jaca; pés de graviola; de sorte de laranjas, limões, enfim, uma infinidade de frutas. “Que saudade da casa de papai! Como eu fui tolo. Eu sou um tolo! Meu Deus, eu sou muito tolo, eu destratei meu pai. Eu sequer olhei pra trás quando sai. Eu nem dei um último tchau…”, assim, conversava consigo mesmo, com as lágrimas quentes descendo por sobre as suas bochechas. O espelho da vida se erguia diante dele. O cantinho da consciência era iluminado, a eternidade gritava dentro dele.

É nesse ponto que o rapaz toma uma decisão. Sim! Pois, pra toda queda nesse cantinho, entre a alma e o espírito; em sua consciência, há que se tomar uma decisão de “LEVANTAR-ME-EI e IREI TER COM O MEU PAI” (sim, as letras em caps lock, negrito e itálico são propositais para nos dar a ideia de tamanha decisão precisa ser ante esse encontro consigo mesmo.

Aquele rapaz se levantou, conversou consigo mesmo, ensaiou o seu discurso. Reconheceu o seu pecado vertical, seu pecado horizontal (Afff, comecei a ser teólogo agora. Deixa-me voltar. rsrsrsrsrs), reconheceu que não é digno de nada. Ele preparou toda uma teologia, toda uma mensagem do seu retorno. Ele queria ser reconhecido pelo menos como um dos vaqueiros do pai, pois, nessa condição ele sabia que teria uma condição de vida melhor; mais digna.

Quantos de nós nos encontramos nos lamaçais de nossas decisões? Quantos de nós estamos oxigenando os ares lúgubres, hostis e fétidos? Nesse ambiente, você consegue perceber a luz que vem ao seu encontro? Você consegue ouvir a voz da consciência sussurrando no seu interior? Apesar das sombras, você consegue enxergar um facho de luz que surge? Apesar do mau odor, consegue sentir o perfume de esperança, lhe provocando um cheiro essencial e existencial, no íntimo do seu ser?

Quando Deus fez o homem, ele pôs a eternidade dentro de sua obra de arte. Por mais que sejamos habitantes em terras estranhas, há um grito dentro de nós; um gemer pela essência do qual nos compõe. Há um tocar de tambores, dentro de nós, que entoam os batuques, as músicas que enredam as festas de nosso lar; o encontro com o Painho; o Aba. Os cheiros dos banquetes; o som dos instrumentos; as rodas de conversas; a celebração do encontro entre amigos, todas essas coisas nos visitam intimamente. Existe um clamor dentro de nós.  A vida desse jovem é um arquétipo sobre nós. A parábola do filho pródigo é sobre nós.

De tudo o que disse, digo e direi, guarde uma coisa no seu coração: “A Graça de Deus me visita onde estou. Não existe um ambiente, por mais adoecido que venha ser, que a Graça de Deus não me visite. A Graça que me visita, me acolhe”. E nos próximos devocionais-leituras, completaremos com: “A Graça que me acolhe, me transforma”.

Precisamos conversar conosco mesmos. Existe uma teologia, nos últimos tempos que alterou nossa forma de enxergar nosso Painho; o Evangelho; a comunhão dos santos; a assembleia dos justificados e remidos pelo sangue de Jesus. Essa teologia, antes de nos levar para o ambiente das desgraças absolutas; pros abismos que chamam demais abismos, colocou em nós uma vaidade tal qual, a ponto de dizermos, no nosso coração: “Pai, pra mim, tu estás morto. Me dê a minha herança. Me dê o poder. Eu sou suficiente!”. Entretanto, cá estamos nós, encontrados com as exortações de amor ante os resultados de nossas prepotências.

Ouçamos, pois, as palavras de amor conforme Jesus as disse à igreja de Éfeso: “Lembra-te de onde tu caíste”. O Senhor Jesus, depois de mostrar para a igreja de Éfeso sobre as razões o lugar em que se encontrava, ele instrui que o enxerguemos DE ONDE nós caímos. Olhar o lugar da queda, olhar quem nos tornamos após a queda e ficarmos todos arrebentados é importante, porém, existe uma contemplação a ser feita: “Lembra-te, pois, de onde tu caíste. Arrepende-te e volta”.

O filho voltou. Mas, o seu retorno ainda tem muitas coisas a nos ensinar. Os encontros com sua consciência ainda não estavam de todos ajustados. Uma plenitude singular o aguardava, seguida de uma plenitude plural que seria colocada diante dele.

Que tenhamos esse encontro… todos os dias… Com a nossa consciência, até voltarmos à nossa sã consciência, pois essa, só a teremos no encontro que ainda nos falta.

          Enquanto lhe escrevo esse texto-reflexão, por volta das 23h40, da terça-feira, 29 de setembro de 2020, cai uma chuva expressiva sobre Araguaína/TO, depois de dias de intensa sequidão.

          Que na sequidão de nossos abismos, possamos receber a chuva que nos conscientiza; caindo em si, e nos levantando pro retorno; pra casa do pai; pra vida.

          Continuaremos…

Bejo Bento.

Pare e Pense!

          // Fael Proskuneo //

UM ABISMO CHAMA OUTRO ABISMO – Da vaidade à miséria.

O filho saiu… Ele se foi. Aquele pedido: “Dá-me a parte que me cabe”, foi um pedido sério, decidido, incisivo, cortante. Para aquele filho, o pai havia morrido. Os desejos por experimentar os prazeres da vida foi a cisão precisa. Talvez, ele sequer tenha se despedido formalmente de seu pai com um “tchau” ou “adeus”. Talvez, ele sequer tenha olhado pra trás, apenas partiu. Partiu ansioso por onde começar sua nova vida, suas novas aventuras. Saiu de casa poderoso. Saiu de casa cheio de dinheiro. Saiu de casa com o poder de autodeterminação à procura de saciar suas vontades; seus prazeres.

Um jovem com dinheiro, sem experiência e muita sede de prazer, é presa fácil pro caos; pra desordem; pro estorvo. Não demoraria muito, e a desventura seria notória. E assim aconteceu.

Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada. (Lucas 15:14-16)

É interessante como o salmista é pontual em nos afirmar que um abismo chama outro abismo. Sim, sempre que estamos diante de uma situação catastrófica, demais situações adversas surgem, quer sejam provocadas por nós mesmos, quer sejam por circunstâncias alheias ao nosso poder de controle. Para aquele rapaz, o caos o visitou. Ele criou a sua própria cova. Ele não soube investir todo o seu recurso, afinal, ele saíra da casa do pai, não porque pretendia construir algo para si, mas para viver num redemoinho de si mesmo com seus prazeres mais absurdos. Bebeu os melhores vinhos, comeu as melhores comidas, dançou as melhores músicas, visitou os melhores bordéis, transou com as mais belas mulheres, se regalou como pôde. Então, consumiu tudo, acabou com tudo. E como um abismo chama outro abismo, agora, ele que estava a mercê da própria sorte, se deparou com uma crise de ordem econômica, social, política que sobre viera ao país que ele estava, como nos diz o texto. Assim, aquele rapaz for criar porcos. Pulou do abismo da vaidade para o abismo da miséria.

É de extrema importância trazer à baila em nossa reflexão, que para os judeus, porco é um animal impensável na relação, especialmente para consumo. Aqui, todavia, temos um jovem tendo que se submeter a cuidar dos animais, dos quais na casa de seu pai, sequer possuíam, pois era uma criação impensável. Era algo amaldiçoado, inaceitável, putrefato, era o ápice da imundícia. E é nessa condição que se encontra o rapaz, e mais que isso, desejando comer o que os “animais imundos” comiam.

É interessante notarmos como é a vida daqueles que vivem distantes do aconchego Painho celestial. Entendam, eu não estou reduzindo essa conversa-escrita ao fato de irmos à igreja-templo-domingo-clero – até porque tratarei desse assunto-momento nos próximos encontros-devocionais. A despeito disso, temos a parábola da dracma perdida, que se perdeu “dentro de casa”, mas como disse, ficará pros próximos encontros – eu estou falando de vivermos alheios á vontade do Senhor: alheios à humanidade conforme a humanidade de Jesus de Nazaré. Foi para sermos semelhantes a Ele que fomos chamados.

Em Gênesis 13, vemos um relato interessante. Abrão e seu sobrinho Ló, viviam nas mesmas terras, mas aconteceu que em determinado momento eles não puderam mais ficar juntos. A escritura narra que ambos ficaram mui prósperos, cuja terra não podia suportá-los, e os pastores dos rebanhos de ambos se desentendiam sempre. Abrão chega para seu sobrinho Ló e lhe faz a proposta: “Decida! Se você para aquele lado, eu vou para outro lado. Não podemos ficar juntos mais, para que não haja desavença entre nós”. O que provoca a minha atenção é que Ló escolhe as campinas, os pastos mais interessantes, os ambientes mais aprazíveis aos olhos. E a bíblia diz que ele foi no rumo das campinas construindo tendas e mais tendas, até o ponto que Ló e todos os seus bens, pastores, rebanhos e tendas estavam dentro de Sodoma e Gomorra.

Quantos de nós, à semelhança de Ló, preferimos os caminhos mais aprazíveis aos olhos e construímos nossas tendas, com aprazibilidade, até que nos percebemos dentro de algo que já nos foge do controle? Quantos de nós, não somos levados pelo o que tem aparência mais satisfatória, todavia, estamos caindo no precipício? Assim foi Ló, ele fora construindo suas tendas, suas moradias, seus descansos; seus domínios; seus prazeres, até que estava dentro das cidades, cuja ira de Deus se manifestaria mais tarde.

“Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte”. (Provérbios 14:12)

Caminhos de morte são os caminhos que nos distanciam de Deus; do Pai; do encontro com a vida; com os irmãos – e quando digo irmãos, eu não digo apenas os que frequentam o mesmo clube eclesiástico. Eu, Rafael, estou convencido a cada dia que meu compromisso com o Reino de Deus é um compromisso com o próximo para além da relação instituição, não que os irmãos nas instituições não estejam presentes nessa relação, pois, esse próximo é o outro com quem encontro todo dia, enquanto a vida acontece, independente da relação dele com suas respectivas ortodoxias clericais. Por isso, os caminhos de morte são aqueles que me fazem fugir das relações densas, reais, concretas, verdadeiras e que me levam para um mundo de loucuras, de suprimento dos prazeres a todo custo.

O homem no Éden, comeu do fruto (proibido) porque lhe era aprazível aos olhos, ao paladar e dava conhecimento. Ló, contemplou os contrastes verdes das montanhas, das campinas, construindo uma paisagem com o céu ensolarado, que dava perspectivas de prazeres e crescimento. O filho mais novo (pródigo), contemplou o seu ego, o seu caminho interno cheio de apetites, desejoso por descobertas e experiências, construiu assim, a sua estrada rumo ao abismo. Um abismo que chamou outro abismo, que chamou outro, que chamou outro, que sobreveio outro… Até o ponto que ele desejou comer as imundícies das imundícies.

Quando estamos nesse lugar de distância do Pai e os abismos vão se abrindo, e caímos no lugar mais repulsivo, sórdido, torpe, asqueroso; o fundo poço da nossa história – assim como Jonas que fugiu e só desceu, desceu tanto a ponto de ir pra um lugar que a sua salvação era ser vomitado na praia – a gente começa a contemplar as alfarrobas como sendo banquete, chiqueiro como casa real.  A partir daí tem-se um claro sinal de que precisamos repensar.

Quando estamos distantes do Pai? Quando trocamos o amor pela esposa e pelos filhos, substituindo pelas farras e prostituições.

Quando estamos distantes do Pai? Quando trocamos o compromisso com nossa casa por “amizades nada saudáveis”, que nos dão conselhos de morte.

Quando estamos distantes do Pai? Quando deixamos de ser éticos em nossas profissões e relações cotidianas, e tiramos proveitos e vantagens para termos uma margem maior de lucro ou coisas similares.

Quando estamos distantes do Pai? Quando nos posicionamos contra a causa dos órfãos, das viúvas, dos pobres, dos necessitados, dos pequeninos, e em determinadas vezes, tais agentes, são pretextos e discursos vazios para tirarmos proveitos e construirmos uma imagem de “agente do bem”.

Distantes do Pai, a gente faz a viagem do extremo prazer à estação mais deprimente do ser, em questão de pouco tempo, pois um abismo sempre vai chamar outro abismo.

Aquele jovem, do aconchego da casa do pai, passando pelos prazeres da vida, ao estado de miserabilidade incalculável.

Na nossa jornada da vida, estamos em algum abismo? Quais seriam eles? Qual o nosso lugar esses dias? O que temos comido? Prazeres ou desejo por alfarrobas?

A história não para, tampouco a parábola.

Continuaremos…

Pare e Pense!

// Fael Proskuneo //

INSATISFAÇÃO – Uma teologia perigosa surgiu entre nós; no nosso coração.

Certa vez, ouvi um pastor dizendo que fora convidado para uma reunião; um culto. O louvor foi maravilhoso. O ofertório, tudo normal. Então, o pastor local chama o pregador daquela noite. De início, o pregador pede para a igreja abrir suas bíblias no evangelho de Lucas, no capítulo 15, versículo 11-12. “Certo homem tinha dois filhos. O mais moço disse: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres” – leu o pregador, com uma voz impostada. Então, o pregador fechou a bíblia e começou a discorrer: “Queridos irmãos, nessa noite eu quero, lhes apresentar, a fé que agrada a Deus! A fé que agrada a Deus, meus irmãos, é aquela em que você vira pro seu Pai que está nos céus e determina: Pai, me dê a minha benção! Eu fui chamado pra ser calda e não cabeça. Eu determino, que seja ligado no céu a minha reivindicação na terra, eu exijo que as heranças dos céus; o melhor desta terra; as bênçãos sem medidas; aquilo que é meu por direito me seja dado, agooooooooooooooraaaaaa” – e o ambiente foi tomado por acalorados aplausos, pessoas levantando, gritando palavras de afirmação e “rajadas de línguas estranhas”.

Parece uma mera historinha, uma alegoria, uma metáfora, mas não, não é. Eu, pessoalmente, nessas mais de duas décadas de jornada no Evangelho, já testemunhei coisas similares a essas, e outras bem piores; bem bizarras. Não é nenhuma novidade essas manifestações, especialmente nos últimos 16 anos.

O fato é que no episódio acima descrito, e tantos outros, é que essa teologia, essa postura ganhou, e ganha cada vez mais, força nos púlpitos das igrejas; em pautas de células; em rodas de amigos. Existe sim essa presunção de “olhar pros céus” e reivindicar o “direito dos santos” ou coisas dessa natureza. Todavia, nosso objeto de reflexão nesses dias, especialmente nesse primeiro momento é mostrar que as coisas não são bem assim.

          O texto de Lucas 15 nos diz: “Certo homem tinha dois filhos;
o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres. Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente”.
Nesse primeiro momento; nessa primeira reflexão quero me ater apenas a esses versos. A parábola do filho pródigo, de fato, começa com essa reivindicação, porém, isso não significa que essa é a vontade de Deus. É uma questão lógica. Basta analisarmos o todo da parábola e veremos que a proposta dela não se atém a isso. O que faltou para aquele pregador, e muitos hodiernamente, é a continuidade da mensagem que essa parábola quer nos informar e consolidar nosso coração.

          Precisamos entender que Jesus estava narrando uma história, uma metáfora, uma parábola, para que os seus ouvintes – e hoje leitores – entendessem um cerne da mensagem de Deus. A parábola versa sobre um pai com seus dois filhos, e sobre a queda de coração e o distanciamento que ambos os filhos tinham tido do pai. É sabido por todos que são mais acostumados com a leitura da bíblia e história de Israel, que o direito de herdar do pai os bens da família, a posição de chefe da família, após a morte do pai, era do filho mais velho, o que chamamos de direito de primogenitura. O que vemos nessa parábola, já de início, é algo anômalo e contra tudo o que se possa imaginar por moralidade e respeito. Aquele jovem, exige a herança com seu pai ainda vivo, uma coisa inimaginável naqueles dias. Pedir a herança assim pro pai, em vida, com essa audácia e veemência, era um cuspe na face do pai. Algo vexatório e desonroso. Entretanto, na parábola, Jesus deixa claro que o pai separa os bens, entrega para o filho, ainda que com aquele pedido viesse com uma força de quem dizia: “Pra mim, você morreu”.

Não se passaram muitos dias e o filho partiu. Partiu pra longe de tudo o que viesse trazer recordações da casa de seu pai; fora viver independente, se entregando a todos os prazeres que lhe era ofertado. Aquele filhou, estava agora, vivendo o seu ápice. O ápice da sua soberba, da sua loucura, meteu os pés pelas mãos, bebeu dos melhores vinhos, provou dos melhores sabores, se lambuzou nos melhores prazeres e amores. Experimentou tudo o que na casa de seu pai ele não havia provado, tocado, lambido, se deleitado. E mais, ele foi pra um lugar distante. Um lugar onde só os sabores e prazeres eram a regra de vivência e atenção de seus olhares. Mas, afinal de contas, onde eu quero chegar com esse primeiro momento de reflexão nosso? Simples!

Durante muitos anos eu testemunhei os irmãos da fé vivendo uma vida de gratidão. Uma vida, que consoava com as palavras de Paulo, o apóstolo, que diz: “Tendo o que comer e o que vestir, regozijemos e agradeçamos ao Senhor”. Uma vida que vislumbrava sim, uma boa vida na terra, porém, não se divorciavam da Missão que queima o coração do Painho. O que isso tem a ver? Hoje, cresce o número de pessoas insatisfeitas com a vida que o SENHOR nos preparou. A cada dia que passa testemunhamos, mais e mais, pessoas com uma sede incontrolável; uma vontade enorme de saciar seus desejos em coisas e coisas, e mais coisas. Me assusta o fato de como nossas mensagens de púlpito mudaram. Me assusta como os nossos irmãos hoje, na igreja, são diferentes de alguns anos atrás. Pessoas e mais pessoas cada vez mais sedentas por prazeres de toda ordem, seja dinheiro, seja poder, seja status, seja sexo, seja chefia de igrejas. E isso vem aumentando. Isso vem crescendo exponencialmente, dia após dia.

          Irmãos, que me leem, que me acompanham, não estou dizendo que uma vida próspera ou coisa parecida é algo ruim. Saibamos dividir as coisas. A minha fala-escrita, se dá na direção do quão distantes estamos ficando do PROPÓSITO DE DEUS. É sobre isso, sobre o propósito de Deus; a vontade de Deus, que irei transcorrer nesses dias com essa parábola. A presente admoestação-reflexão-leitura é um grito que surge no coração de muita gente querida, assim como no meu, que ama o Senhor, porém, estão aturdidas no meio da jornada com tudo isso que vem acontecendo.

A tão chamada teologia da prosperidade ganhou novos contornos, novos discursos, novas propostas. A teologia da prosperidade se reinventou, se ergueu, atravessa as crises e ganha, cada vez mais, corpo; densidade e intensidade. Por quê? Porque ela mexe com o âmago do ser humano. Ela gera insatisfações e coloca no coração do homem um desejo de subir até os céus e dizer: “Serei como o altíssimo”. Isso te lembra alguma coisa?

A prova disso, de que essa teologia se reinventou, é que:

Pregadores de antigamente: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho unigênito, para que todo aquele Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Irmãos, Deus entregou seu filho por amor e, como resposta a esse tão grande amor, devemos nos render e desfrutar dessa verdade, para que tenhamos paz, anunciar essa paz e esse amor a todos os seres humanos e possamos desfrutar de pleno gozo celestial na vinda de Cristo, quando ele ressuscitar todos aqueles que foram crucificados com Ele”.

Pregadores de alguns anos atrás (teologia da prosperidade): “Venha para essa igreja! Somente aqui acontece. Aqui sim o milagre acontece! Às 20h, Deus vai estar aqui, e se você não vier e não trazer uma oferta de sacrifício de “tantos reais”, você não verá o milagre acontecer. Deus tem um novo emprego pra você, mas você precisa fazer a oferta do sacrifício. Deus tem um carro novo pra você, mas precisa do seu sacrifício. Somente aqui você verá a mão de Deus operando”.

Pregadores de hoje: “Você precisa entender o que é ser líder de sucesso. Não! Você não está entendendo! Corre agora lá no meu site e faça já o seu cadastro. A partir do dia tal, você vai ter acesso as chaves que destravam e ativam um líder sucesso. Ali eu vou te ensinar sobre liberdade financeira, investimentos, casamento blindado e alinhado com propósito de uma vida próspera, como criar filhos na liberdade e no sucesso. Você não tá entendendo! Eu não estou falando apenas de você ser somente um líder eclesiástico de sucesso, mas, ser um investidor na bolsa de valores e ter a tão sonhada liberdade financeira, um gestor de qualidade, um líder com uma mente milionária. Corra já! É fácil. Basta acessar o meu site e você já estará cadastrado para o grupo dos vencedores. Não perca essa oportunidade. Já temos mais de meio milhão de inscritos. Não fique de fora! Leões andam com leões!”.

Perceberam como até mesmo nomenclaturas e verbetes clericais foram sendo retirados da boca de seus anunciantes? Sabe o que é isso? DISTANCIAMENTO provocado por INSATISFAÇÕES, chanceladas por COBIÇAS e GANÂNCIAS. Os olhos estão cegos pra dentro da Casa do Pai, e se projetaram no que o Pai pode oferecer como financiamento, para então rodear a terra, gozando delícias, podendo fazer o que bem entendem, inclusive pregando um evangelho anátema, que é o que mais vemos por ai.

Precisamos tomar cuidado com as nossas jactâncias. Nossas arrogâncias. Nossas ambições. Nossas teologias que constroem um universo de prazeres desenfreados, sobretudo, demoníaco.

Um certo dia, Ló e Abraão precisaram se separar, pois ambos estavam muito ricos. Abraão deixou que Ló escolhesse o lado, a banda para ir cuidar de seus rebanhos. Ló escolheu as campinas mais verdes, as terras mais atraentes aos seus olhos, então foi construindo tendas e mais tendas, até que um dia Ló se percebeu dentro de Sodoma e Gomorra.

“Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte”. (Provérbios 14:12)

Pois é… Precisamos parar e refletir: Quem sou eu? Quem é o meu Pai? Para o quê, de fato, eu fui chamado? Qual a minha posição agora? Estou mesmo no instante de aprazibilidade aos olhos do meu Painho celestial. Se ele olhar pra mim agora, ele dirá: Filho, em ti me comprazo, pois estará vendo Cristo em mim? Ou dirá: Toma a sua parte, não reconheço meu filho em você mais?

Se vai sair, com tudo o que Ele te entregou, então pare no portão, olhe pra trás, tente encarar as lágrimas escorrendo na face vivida do “Teu Velho” e veja a carta que se abre diante de ti no olhar que tudo sabe.

Amanhã, continuaremos a jornada… Sabemos a decisão do filho na parábola. Vamos construir a nossa jornada enquanto analisamos a dele?

“Concedeu-lhes o que pediram, mas fez definhar-lhes a alma”. (Salmo 106:15)

Bejo Bento.

Pare e Pense!

// Fael Proskuneo //

O FILHO PRÓDIGO – Mais que uma parábola; uma história sobre nossa filiação com Aquele que nos amou primeiro.

A parábola do filho pródigo, sem sombra de dúvidas, é uma das histórias mais conhecidas de toda a bíblia. A história narrada no evangelho de Lucas no capítulo quinze, é na verdade, a terceira parábola de um trio de histórias onde se encontram episódios de encontros, desencontros e reencontros. Todavia, esses desencontros e perdas encontram ampla dificuldade no curso de seu retorno ao “status quo” da vontade de Deus.

A tríade metafórica, narradas pelo próprio Senhor Jesus, nos dão conta da necessidade de perseverança por aquele que se perdeu no caminho, dentro de casa ou por uma mera vaidade e desejo de seguir os impulsos do coração, em voltar ao plano e propósito original. Antes de Jesus entrar propriamente dito na parábola do filho pródigo, ele nos conta duas outras metáforas interessantíssimas que, certamente, no decorrer do nosso passeio devocional, iremos abordar alguns pontos na tentativa de concatenarmos o todo da história.

A parábola do filho pródigo tem alguns “fios desencapados” que precisamos entender e aplicar para o nosso cotidiano. É preciso uma exegese e hermenêutica cristocêntrica para analisarmos cada momento dessa história, sobretudo, compreender como isso vem ao nosso encontro, com a nossa realidade, nos dando vida, e vida em abundância, experimentando a boa, perfeita e agradável vontade do Senhor.

Nessa minha proposta de reflexão; esse convite para meditarmos sobre a vontade do Senhor, pretendo dividir a parábola do filho pródigo em seis episódios-textos, onde assim, vamos construindo uma jornada interior para caminharmos sob a graça de Deus rumo à plenitude dos tempos; a eternidade.

Creio que será interessante repensarmos nossa postura teológica, de crença e jornada espiritual experimentando os sabores, bem como os dissabores, que essa parábola nos proporciona. É uma porção do Evangelho muito rica, por isso, insisto no convite a ler e meditar nos textos, bem como termos como um feedback – se possível – para termos comunhão, ainda que virtual, sobre o desfrutar das escrituras que produz em nós esperança de glória.

Topa vir comigo nesse momento de leitura-reflexão-oração-mergulho nessa porção das escrituras? Espero que sim.

          Nele, que é o nosso Aba Pai, com olhar fito na estrada, nos aguardando para o nivelamento da Graça de Deus.

// Fael Proskuneo //

OBS: Orem por mim. Em meio a tantos desafios acadêmicos, familiar, pessoal, me senti interpelado pelo Espírito Santo a promover esse momento-encontro para comunhão com os santos. Assim, pretendo também, lançar esses e outros “papos escritos” em áudios. O Senhor Jesus seja conosco!

Ele está lá.

Ele está lá!

Os dias são maus. Essa informação dispensa dissertações, é verdade, pois todos nós sabemos o quão desatinados têm sido os últimos dias; pandemia (covid-19); crise financeira; crise política e até mesmo crises relacionais. Todavia, olhando para esse tempo; esses dias, podemos ter uma firme convicção: O PAINHO está em cada momento desse instante absurdo, caótico e sombrio. Eu não tenho dúvidas disso.

O Senhor Jesus nos disse: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Ora, se é nesse mundo que todas as aflições são ativas e atuantes, e se é nesse mundo que nosso Amado Senhor venceu o ambiente do caótico, então, atravessemos essas aflições, pois, do outro lado o Pleno se instaurará. Sim! Ele estará do outro lado da tormenta. Mas, e durante a tormenta? Ele também está e estará conosco. Em tempos como esse, Ele está conosco. Essa é a fé que vence o mundo. De que somos nascidos de Deus nessa compreensão; nessa certeza de que Ele está conosco e, quando chegarmos do outro lado, estaremos perseverantes, experientes, esperançosos… Essa é a nossa fé. A fé que vence o mundo. (Vide 1ª João 5)

A gente vai passar pela prova. A gente vai passar pelo fogo. A gente vai passar pelas muitas águas, mas, ELE ESTARÁ CONOSCO. O fogo, as águas, as provações não terão poder de anulação do nosso interior, pelo contrário, o nosso homem interior se renovará de glória em glória.

O salmista disse: “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá.”

(Salmos 139:8-10)

Não temos como nos eximir de passarmos por provações. Não tem como! Ninguém está imune, ninguém está livre do dia mau, porém, tenhamos por motivo de grande alegria o passar por várias provações. É o que nos diz Tiago, o apóstolo. Por isso a importância de ressaltar o que o salmista nos diz, para onde formos, o SENHOR estará lá.

Onde quer que eu esteja. Ele está comigo.

Onde quer que eu vá. Ele está comigo.

Abramos os nossos olhos da fé e contemplemos a brilhante estrela da manhã.

Alguém talvez indague: “Mas como isso se dá? Como contemplarei os cuidados desse Deus?”. Simples. Muito simples.

Deus está na apreciação da beleza. Deus está nos rabiscos de um verso. Deus está num desenho e sorriso de uma criança. Deus está na doçura de um poema; nas emoções de uma poesia; na leveza da arte.

Deus está no cuidado. Deus está no conselho de amor. Deus está no encontro fraterno. Deus está nas mãos estendidas. Deus está nos cuidados dos profissionais da saúde para com aqueles que estão hospitalizados. Deus está na mãe que acalenta seu filho, mesmo que o dia tenha sido de intensa necessidade. Deus está na esperança do pai de família que sai pela manhã na busca de ganhar o pão pra sua família; pros seus filhos. Deus está na equidade daqueles que lutam incessantemente por justiça. Deus está nas lágrimas dos que choram as suas perdas. Deus está nos abraços que amenizam a dor.

Deus está!

Deus está mesmo quando você não consegue percebe-lo, mas, precisamos percebe-lo. Para quê? Para a vida seguir um curso mais fluido e gracioso. Para que saibamos passar pelas adversidades e contemplarmos o Deus que amou o mundo.

Precisamos percebê-lo para que não fiquemos apenas nos atributos desse Deus, que são Onisciência, Onipresença e Onipotência. Precisamos percebê-lo para que possamos experimentar as virtudes desse Deus, que são: o Amor de Deus Pai, a Graça do Filho e a Comunhão do Espírito.

Não se trata de sentir. Se trata de certeza. Se trata de perceber com fé.

Isso é fé!

Isso é convicção!

Isso é VIDA DE DEUS. VIDA COM DEUS!

Não há magias. Não há feitiços. Não há mistérios. Tudo foi revelado em Cristo. A vida está acontecendo e Deus está tecendo o seu caráter nas dinâmicas de amor em meio ao caos.

Em cada instante da nossa vida, Ele está.

No nosso ontem, Ele esteve.

No nosso hoje, Ele está.

No nosso amanhã, Ele também já está.

Tomara sejamos sensíveis pro encontro com Ele.

Creia!!!

Pare e Pense!

// Fael Proskuneo //

COVID-19 e Igreja – “A pandemia e a nova religião”.

Estamos diante de um fato inusitado. Nossa geração não sabia o que era lidar com uma PANDEMIA e suas consequências tão catastróficas como essa que estamos vivendo esses dias com a COVID-19. Os dias são tensos, lúgubres, densos, nos jogando num mar de incertezas e subjetividades.

É bem verdade que a H1N1ceifou muitas vidas, segundo o balanço da OMS (Organização Mundial da Saúde) que leva em conta mortes pela doença relacionadas a casos confirmados por exame, foi em cerca de 18 mil. O número, contudo, pode ter sido maior, chegando em valores entre 151mil a 575 mil, segundo estimativas do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), dos EUA. O vírus H1N1 apresentava menor transmissibilidade e menor letalidade que o vírus COVID-19. A COVID-19, na data de hoje, 23 de Maio de 2020, já somam cerca 5.235.452 casos confirmados, mais de 338.600 mortes em todo o mundo, segundo dados da OPAS/OMS Brasil.

Por isso, ressalta-se que a COVID-19 não é uma mera “gripezinha” e tampouco um “resfriadinho”, como foi tratado por algumas pessoas no Brasil. Incluindo uma fala fora de proporção pelo médico Dráuzio Varella, que posteriormente se retratou sobre sua infeliz afirmação. Essa fala também foi reproduzida de forma muito confusa pelo o atual Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, que gerou acaloramento nos debates e até mesmo combate do Corona vírus no Brasil.

O fato é que esses assuntos, bem como outros, entraram no seio eclesiástico causando uma discussão sem precedentes. Certamente, de todos os assuntos que se debate em ambientes religiosos, seja virtual ou real, o maior deles é sobre política, mais especificamente: Bolsonaro.

Não é de se admirar que pessoas, desde sempre, buscam pra si heróis que possam solucionar todas as coisas. Uma espécie de “Batman” que possa “vingar as causas de Gotham City”, porém, no meio cristão evangélico, isso se tornou mais evidente ainda. Assim, diante dessas duas situações, a da busca por um “herói”, um solucionador imediato de todas mazelas e a da realidade avassaladora que é esse COVID-19, surge um impasse; um dilema terrível; um movimento que começa a se instaurar, agora com força estupenda como nunca antes, no meio da Igreja Evangélica Brasileira: BOLSONARISMO! Nesse bojo ergue-se as mensagens inconsequentes que estimulam a população a desacreditar em todos os órgãos sensatos no combate ao Coronavírus, causando uma atmosfera de ódio sem fim.

No Brasil, especialmente nas grandes cidades, os televangelistas e tantos outros adeptos, estão a todo vapor aquecendo fiéis e membros de suas comunidades para aderirem à aglomeração. Alguns prefeitos e governadores, respaldados pelas falas e posicionamento do Presidente da República, estão embarcando numa onda de “descrença” de tudo que é científico, fazendo com que nos sintamos em pleno século 15 e 16 e convocando a aglomeração em nome da “fé”. Sim! A sensação é de regresso sem fim.

O Bolsonarianismo no meio cristão, evangélico e católico, é o que há de mais perverso e sombrio nesses últimos dias. Negam a ciência. Negam as instruções. Desdenham dos casos confirmados e mortes registradas. Pisoteiam na solidariedade e o pior é que fazem tudo isso em nome da “Economia”. Não podemos desdenhar das pautas econômicas. Economia é fundamental para a subsistência humana, mas, sem as vidas humanas, como se fará a economia? Alguns, nessa esteira de pensamento, ainda poderiam arguir que a proporção de morte em detrimento da COVID-19 não se compara ao que um colapso na economia pode ocasionar. Ok. Mas, como cristãos, precisamos fazer valer algumas máximas. A primeira delas é a que o Senhor Jesus nos disse: “O que quereis que os homens vos façam, fazei vós primeiro a eles”. Outras como: “O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. Ele deixa as noventa e nove no aprisco e sai em busca daquela que se perdeu”. Paulo nos diz ainda:“Até que todos cheguemos à estatura do varão perfeito”. John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, porque faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”. Por isso, como cristãos, precisamos valorar a vida humana. Precisamos nos solidarizar com as comunidades, com a sociedade… Com o mundo inteiro.

É lógico que eu não posso generalizar. Não me refiro aos cristãos que votaram no Bolsonaro porque tinha-o como uma solução anti-PT e desejavam ver o país sendo conduzido por uma outra pessoa, por uma outra possibilidade de governança, por um outro projeto que não fosse aquele causou escândalos imensuráveis na nação. Esse desejo de quebrar a corrupção no seio político é legítimo e faz parte do movimento democrático votar em quem tem propostas diferentes das que estavam em curso (apesar de que eu não acho que o então candidato Jair Bolsonaro tinha algum projeto/plano consistente). Todavia, me refiro ao bolsonarianismo, essa nova RELIGIÃO que ganha adeptos acentuadamente no meio dos “cristãos”. Repito: Não são todos, mas, são muitos. Uma manobra política muito bem elaborada está em curso nesses dias.

A pauta econômica é sim importantíssima, repito.

A saúde MAIS AINDA!

Saímos do espectro de solidariedade para o cenário do embate “político partidarista” e nesse (des)encontro bélico as primeiras coisas que morreram foram a VERDADE sobre a COVID-19 e a SOLIDARIEDADE. Um discurso de ódio inflamou toda a igreja como instituição e tal ódio traspassa a agremiação religiosa. Esse discurso de ódio entrou de forma avassaladora no meio da igreja evangélica brasileira. Indo de membros fazendo gesto de arminha durante um culto até os discursos odiosos proferidos dos púlpitos, ou seja, se tornou um “oráculo da maldade”. Uma ortodoxia acachadiça.

Meu Deus! Está tudo errado!

O SENHOR JESUS nos alertou que até os eleitos poderiam ser enganados. E como tem havido engano. O maior deles? Achar que as instruções das autoridades sanitárias e o poder de polícia do Estado ante os descumprimentos dessas instruções e ordens, ser evocado como “perseguição aos cristãos”. Vimos essa semana uma mulher numa praça revidando às ordens policiais e, ao ser abordada com mais ostensividade, começou a gritar desesperadamente alegando que os policiais são um bando de “comunistas” proferindo demais palavrões. Nessa esteira, líderes religiosos batem de frente com as orientações e recomendações das autoridades sanitárias e entram numa disputa infantil. E, justamente essa adesão dos líderes a esse discurso faz com que os membros das comunidades tenham atitudes esdrúxulas e perigosas. Sórdidas e venais.

Meu Deus! Cadê os crentes que levantavam clamores a Deus sem lentes do espetáculo e aplausos? Cadê os crentes que abriam suas bocas para proferirem trechos das escrituras sem interpretações equivocadas que patrocina o ódio, antes, convocavam o povo à reflexão e ao arrependimento? Cadê aquele povo que orava e confia no Deus Todo-Poderoso? Pois é, eles ainda existem, mas em números inexpressivos, porque o que vemos é uma multidão de pessoas patrocinando o discurso de segregação e opiniões raivosas.

Por isso, me uno àqueles que diante desse inusitado momento, preferem ressignificar a vida com Deus e projeta palavras de vida apesar do caos. Eu vi um pastor, o qual eu sou admirador pela lucidez e sobriedade, dizer algo que me chamou a atenção: “Esse momento é momento de estabelecermos COMUNICAÇÃO AFETIVA e CONEXÃO EFETIVA”. Quão ricas foram essas palavras que vieram de encontro ao meu coração. Afirmação que aqueceu minha fé. E essa precisa ser a verdade desses dias.

É tempo de comunicação afetiva. Falarmos com o coração. Falarmos com salmos. Falarmos as verdade de Deus e esperança do céu. Falarmos com amor, falarmos do Amor.

É tempo de conexão efetiva. Orarmos no secreto. Ouvir Deus na quietude que esse momento nos oferece. Em Cristo, mergulharmos na simplicidade e profundidade das escrituras; dos ensinamentos de Jesus.

O mundo padece da generosidade dos filhos de Deus. Não dos religiosos. Dos filhos de Deus. Paulo, o apóstolo, em Romanos, nos diz que a ardente expectativa da criação aguarda ansiosamente pela manifestação dos filhos de Deus. A manifestação dos filhos de Deus é revelar a identidade do Filho Perfeito de Deus e não o caos, não a loucura, não a incoerência com a ordem. O Reino de Deus é o governo de Deus. O governo de Deus significa que todas as coisas vão tomando o seu lugar pelas vias da Paz e do Amor. Em meio à guerra vencemos com paz. Nosso Senhor é o Príncipe da Paz.

Mudemos nossas posições! Não mergulhemos nessa do discurso de ódio. De abominação da ciência. De desdém da coerência das autoridades gabaritadas para falar em nome da saúde. Um dia, a religião desdenhou de Galileu Galilei, Copérnico e tantos outros. Anos depois precisou se retratar.

A ciência e a fé NÃO são antagônicas. A religiosidade cega, sim, especialmente essa nova que está em curso que eu chamo de: Bolsonarismo.

Vamos sair dessa!

Tudo vai passar!

Céus e terra passarão, o que permanecerá é a Palavra do Todo-Poderoso.

Enquanto isso, aproveitemos o nosso tempo para sermos IGREJA em casa. Abraçar, ouvir, orar, ler as escrituras, cantar louvores, fazer comidas leves, comidas saborosas, jogar um jogo com o filho, estudar as matérias de faculdade, estudar meios de se reinventar no trabalho, rever fotos antigas, rememorar sentimentos, agradecer, orar, orar, orar e ficar em PAZ. Não vamos entrar no discurso da segregação, do ódio, da discórdia, da mentira, da FAKENEWS. Vamos nos solidarizar com aqueles que sofrem com a perda de seus entes. Vamos tomar cuidados essenciais para não termos entes vitimados; tomar cuidados para não sermos as próximas vítimas.

Tudo vai se estabilizar novamente!

Economia se reinventa. Saúde se preserva.

Cuidemos uns dos outros. Reparta o pão. O Eterno repartiu o que Ele tinha de melhor consigo; seu Filho; o Pão da Vida. Doe uma cesta básica. Faça uma oferta. Faça um bolo e ofereça às famílias. Troquem mensagens, não pelo celular, escreva cartas e deposite na caixa dos correios dos irmãos da sua comunidade local, dos seus familiares. Se reinvente nas relações preservando os valores do céu e as delícias de se viver em paz com todos. VAMOS PROCLAMAR A MENSAGEM DA RECONCILIAÇÃO. Diga NÃO à mensagem da segregação. Diga SIM à mensagem da agregação. E assim vamos restaurando a CONGREGAÇÃO.

Quantos àqueles que perderam seus entes queridos, silêncio, reverência e oração. Que os céus os abracem ante a carência de abraços dos amigos.

Pare e Pense!

// Fael Proskuneo //

PS. Atualizei números hoje, 23.05.2020, um dia após a divulgação, autorizada pelo ministro do STF, Celso de Mello, do vídeo da reunião de Bolsonaro e seus ministros. Reunião essa que foi juntada no inquérito após as acusações do ex-ministro Sérgio Moro. Nesse dia, os “cristãos” ficaram mais efervescidos ainda em idolatrar o “Messias Bolsonaro”.

TEOLOGIAS CRIANDO PERVERSOS. O EVANGELHO CRIANDO GENTE HUMANA.

O perverso não é um mero pecador. Ele peca por si, peca pelo outro, leva-o outro a pecar, se regozija nisso e acha que está tudo certo. Porque o pior cego não é aquele que não vê, tampouco aquele que não quer enxergar. O pior cego é aquele que vendo, enxerga tudo alterado conforme o que lhe apraz. Nisso, surge a maldade.

Como cristão; seguidor de Jesus, recuso-me compactuar com maldades, especialmente a maldade estrutural; instituída por acordos populares podendo ser sancionadas pelos poderes que as façam vigorar.

Recuso-me assentar na mesa das distorções do Evangelho em nome do “evangélico”. Não compactuo com teologias cujo trabalho têm sido distorcer as palavras do Cristo. Teologias que não se permitiram encontrar com a Graça de Deus, antes, se tornaram empecilhos para aqueles que são alvos dessa Graça. Não merecem atenção, sequer pra vaidade acadêmica. É preciso erradicar tais teologias e suas falácias.

Recuso-me a crer que a “lei do dízimo” possa cancelar a oferta de amor. Sou contra o dízimo? De modo nenhum! Devemos fazer estas coisas sem anular àquelas outras (um acento na teologia da Graça). “Eu dou o dízimo, então tenho que ouvir sermões que fomentam o meu ódio em forma justicismo; vingança; humanos direitos”, diz o tolo contemporâneo em seu coração.

POR FAVOR, ME ENTENDAM!

Eu não consigo crer que pessoas se achem no direito de sucumbir o amor de Deus só porque se tornaram participantes dominicais do templo; do ritual contribuindo financeiramente, cantando hinos que insistem na santidade de Deus (e de fato é) sem que essa experiência da santidade encontre o âmago de nossa existência, o norteio de nossa vivência. A santidade de Deus precisa ser nossa experiência. Eu disse “nossa” (tenha as aspas como grifo-grito meu) e não “minha” e “sua”. Sucumbir o amor a tal ponto como se o mesmo fosse propriedade exclusiva de uma gente; de um gueto é o que há de mais horrendo na história do cristianismo.

Semana passada me deparei com um texto de um pastor conhecido no Brasil, onde o mesmo, munido por sentimentos e leituras que foram patrocinadas por essa polarização que insiste no cenário político nacional, disse que o que importa são os valores morais, não cabendo tanta atenção os valores sociais. Espera um pouco! Diante dos fermentos lançados, esse pode ter efeito crasso no quesito ódio generalizado.

Ora, a Palavra de Deus nos confronta a termos uma postura ética e moral diante de Deus; da vida; dos irmãos; na igreja; nos negócios etc. Todavia, alegar isso sem perceber que o Evangelho desemboca numa ação de esfera social, por conta de paixões ideológicas tratadas com simploriedade? Quanta desonestidade com a Palavra de Deus. Isso é trágico! Ao ler esses desastres teológicos e afins, caio em prantos aos pés daquEle cujo olhar lança luz sobre todos. Como fica a chamada JUSTIÇA SOCIAL gritada no Velho Testamento, especialmente pelos profetas pré-exílio? A causa do Evangelho é para com os marginalizados, órfãos, viúvas, pobres, sejam quais forem as matizes, sobretudo a real; a fática; a do caso concreto.

Isaías, o então chamado profeta messiânico, teve essa experiência com a santidade de Deus. É verdade que, ao contemplar a majestosa glória de Deus, olhou pra si e percebeu as impurezas do seu viver; seu pecado; seus lábios impuros; sua “imoralidade”. Todavia, aquela revelação da glória de Deus eclodiu no seu coração o senso de misericórdia para com o povo de Deus, diante do fato que todos eram pecadores. Em outras palavras, a experiência com Deus tem, sobretudo, desembocadura nas realidades sociais. Reino de Deus é lidar com as dinâmicas da sociedade sem hesitar.

O que Jesus fez, enquanto homem, hebreu-caminhante nos seus dias? Devolveu a dignidade das pessoas; o senso de pertencimento à vida. Uma mulher, cuja menstruação não era vista com bons olhos sob a batuta da lei mosaica? Jesus a curou para que pudesse receber os abraços que há anos não recebia. O leproso que carregava o sino da sua humilhação; anunciando sua vergonha? O Senhor Jesus devolveu a ele a dignidade de receber pessoas em sua casa para banquetes. Aos cegos que ficavam nas periferias da sociedade? Restaurou-lhes as vistas para que saíssem das clemências por atenção e apreciassem o sorriso de crianças, a beleza facial de seus entes. O pai que cheio das indumentárias de seus ofícios corre desesperadamente em busca da cura de sua filha? Decididamente entrou naquela casa cheia de olhares duvidosos e restaurou a vida e o sabor de viver daquela casa. Aquela mulher pega em fragilidade de suas concupiscências sob o conluio da perversão religiosa? Cancelou as pedras legais de sua época.

O que fazer com aqueles que nos saquearam; nos feriram; nos denegriram? O que fazer com aqueles que jogaram na lama as nossas esperanças? O que fazer com aqueles que rasgaram nossos projetos e nos deixaram sós; com a face embriagada de lágrimas? Basta ler! Bastar discernir! Não há projetos de maldade e estruturação da mesma. “No vosso meio não será assim”, disse o Caminho.

Diante do exposto, ainda que breve e um tanto desajustado ante o desejo que permeia as geografias da minha consciência, acentuo que não posso consentir com as construções teológicas atuais. Teologias que elevam o discurso do ódio; que afincam a ideia de “bandido bom é bandido morto”; que subtraem o cerne do Reino de Deus; o espírito da Palavra; o Espírito de Jesus. Essas teologias estão criando perversos.

Isso! Podem me julgar! Digam que sou comunista, socialista, esquerdopata e outros adjetivos com o intuito de me ridicularizar. Me chamem do que quiser! Eu, todavia, não posso aplaudir um momento tão cruel como esse em que vivemos, onde em nome do amor e do ódio às ideologias político-partidárias, sejam quais forem e teologias que distorcem o ensinamento de Jesus. É a Teologia da Maldade.

Sei que corro o risco de ser mal interpretado, porém, prefiro correr o risco de ser mal interpretado pelo o que disse, e eu sei que o que digo aqui e em qualquer outro espaço eu prestarei contas diante do tribunal excelso, do que ser mal interpretado pela omissão.

Não se trata mais de lado político. Se trata de fazer a máxima do Evangelho também na política. Transijo, assim, o pensamento de Dietrich Bonhoeffer: “O silêncio diante do mal é o próprio mal”.

Não acredito em “Messias” além do Ha’Mashiach. Não acredito em mitos, tampouco naqueles que se acham uma ideia.

Não acredito em governo de retrocessos.

Não acredito em governo de oportunistas.

Não acredito em governo que, dentro de um processo democrático, queira eternizar seus planos.

Não acredito em governo que adestra a matança e a aplaude em nome dos bons costumes. O que me preocupa são os discursos teológicos na defesa das ideologias. Fico estarrecido diante dessa teologia que contribui pra essa patifaria; pra essa falta de empatia levando os crentes a flertarem com a perversão, com o totalitarismo, com o ódio. Fico embasbacado com essa teologia que está patrocinando atrocidades; ataques contra seres humanos, repetindo as mazelas da história.

Estão queimando e rasgando a PALAVRA; abominando o VERBO.

Não aos governos totalitários bancados por teologias da maldade!

Não à ideologia de perpetuação irresponsável de poder que achincalha o povo brasileiro!

Não à maldade! Cabendo ainda lembrar: “É preciso extinguir a maldade sem extinguir o malvado”.

NÃO a essas teologias que não cederam espaço à Graça de Deus, que criaram respaldo pra maldade.

Saiam de Êxodo e Levíticos e venham pro Sermão do Monte!

ESSAS TEOLOGIAS ESTÃO CRIANDO O PERVERSO!

Nessas eleições, por exemplo, o grande problema não é quem votar apenas, mas o PORQUÊ estão votando em quem estão votando e o conteúdo que tais teologias fomentam esses PORQUÊS.

A maneira como desenvolvem a meritocracia – a todo custo – não tem muita coerência com a parábola dos trabalhadores da vinha. Pois é.

Que a misericórdia de Deus se faça percebida entre os povos, especialmente no meio daqueles que se chamam pelo nome do SENHOR.

Pare e Pense!

// Fael Proskuneo //

A CASA DE DEUS É O AJUNTAMENTO HUMANO HARMONIZADO PELA PALAVRA.

No início desse ano de 2018, eu estava sentado no sofá do altar da igreja, a poucos instantes de começarmos nossa reunião quando de repente uma voz poderosa queimou no meu coração – Sim! A voz de Deus faz queimar nosso coração – dizendo: “É tempo de viver as revelações contidas na carta aos efésios…”. Aquilo me chamou a atenção. Fui pro teclado, ministrei normalmente, contudo, a voz continuava a insistir a me nortear sobre algo maravilhoso.

O fato é que alguns meses se passaram e eu ainda vivo sob o impacto dessa afirmação e buscando compreensão de tais revelações. De lá para cá, a carta do apóstolo Paulo continua a dividir meus momentos; meus pensamentos; meu tempo juntamente com as leituras de Direito Penal, Direito Civil, Antropologia Jurídica e etc. Efésios é um esboço de como devemos ser igreja. A Carta aos efésios é uma linda declaração de como os santos devem viver. Efésios passou ser uma reflexão em meus devocionais pessoais, visto que até agora não explicitei nada sobre o assunto em meus textos, pregações, tampouco conversas pessoais. Têm sido algo pessoal, antes de começar a manifestar tais verdades. Todavia, esse é um pequeno e substancial texto acerca do tema, não só pro meu coração, bem como para o viver-ser igreja nesses dias.

Sem delongas, pinço uma passagem interessante registrada no capítulo 4, versos de 1 a 6, da respectiva epístola:

“Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo; Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós”.

Não farei, pelos menos aqui nesse texto, um discorrer hermenêutico acerca do todo, apenas tecer um devido comentário para esses dias. “A COMUNHÃO COM DEUS É COMPLETA QUANDO HÁ COMUNHÃO COM OS SANTOS. A COMUNHÃO COM OS SANTOS SÓ SERÁ POSSÍVEL SE HOUVER COMUNHÃO COM DEUS”. Porque digo isso? Simples. Como todo e bom advento, a internet trouxe suas benesses e também seus males. Sem sombra de dúvidas, o grande benefício da internet para nós foi a potencialização da mensagem, pois, com ferramentas como Instagram, Facebook, Whatsapp e Youtube, pudemos aumentar nossos horizontes de chegada do Evangelho, tais plataformas fizeram chegar até nós o que chamamos de “confins da terra”, ou seja, ao invés de irmos, trouxemos. Doutra sorte, essas plataformas nos fizeram ficar inertes ante a Missão. Ficamos acomodados com nossos aparelhos e seus respectivos aplicativos que estamos perdendo o senso de pertencimento da maior maravilha dessa vida, quiçá, a única; o SER-IGREJA. Portanto, diante disso, constata-se que, cada vez mais, estamos acomodados, sentados, pois, diante de nós encontramos pregações de variados gostos e temperos. Bastam-nos alguns cliques e já estamos nos enchendo das mais variadas informações teológicas. Podemos viajar de “A a Z” em diversos assuntos acerca das escrituras, historicidade bíblica, exegeses, homiléticas e hermenêuticas variadas. Podemos, inclusive, nos tornar doutos (ou pseudo-doutos) em assuntos complexos, bem como teologia da prosperidade, teologia da libertação, teologia de causa e efeito, teologia do bem-estar, teologia do martírio, teologia carismática, teologia sistemática, teologia da renovação, enfim, há um arcabouço de teologias e demais assuntos. E assim vamos criando nossos ídolos: “Ah eu gosto mais de pastor tal”, “eu prefiro o apóstolo Fulano”, “eu acho o bispo Ciclano melhor” ou então, “O reverendo Beltrano é mais topper da balada”. Estamos virando religiosos de internet. Isso é gravíssimo!

É nesse ponto, portanto, que surge um grande problema. A perda da COMUNHÃO DOS SANTOS! Entendam que eu não quero aqui frisar os erros da internet, tampouco de teologias e líderes. Não! De modo nenhum! Porém, precisamos parar de refugiarmo-nos nas telas de nossos aparelhos e buscas incessantes pelo o “bem-estar” do curso desse mundo e nos voltarmos ao CONGREGAR. Precisamos ter cheiro uns dos outros; dividir o pão e o vinho; a palavra e a alegria do SENHOR.

Infelizmente, estamos muito distantes uns dos outros. Não existe essa de “Ah eu vou viver a palavra de Deus lá na minha casa” ou “Eu sou igreja lá na minha casa” ou ainda “Eu vou ter comunhão via Whatsapp”. Esse é o maior de todos os enganos. Não percamos a capacidade chorar com os que choram, e se alegrar com os que se alegram. Como bem disse Edgar Morin – filósofo e sociólogo francês: “Apesar de culturas diversas, há algo inerente a todos os humanos, a capacidade de sorrir e chorar, isso destaca nossa semelhança independentemente das culturas”. Isso é maravilhoso! Precisamos nutrir essa UNIDADE-HUMANIDADE com a nossa comunhão apesar da nossa DIVERSIDADE!

Divergências? Teremos, mas, como disse Paulo no texto que mencionei: “suportando-vos uns aos outros em amor, Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”.

O rei Acaz foi um rei perverso. A bíblia nos conta que quando ele morre, sequer foi enterrado junto com os reis de Israel. Seu filho, Ezequias assumiu o trono e no capítulo 29 de 2º Crônicas narra que ele abriu as portas da Casa do Senhor e as reparou. A principal porta a ser aberta e reparada é a de nossa consciência quanto ao ser Igreja como ajuntamento humano; caloroso; fraterno e espiritual. “Levantai oh portas as vossas cabeças” significa, sobretudo, uma nova mentalidade; metanoia. “Não vos conformeis com esse século cibernético; dos aplicativos das redes sociais, mas, transformai vocês mesmos, sendo portais de Deus nessa terra a partir do encontro humano em harmonia em torno da palavra; da comunhão dos santos”.

Irmãos, guardemos a UNIDADE do Espírito; a UNIDADE dos santos; do Corpo.

Quão maravilhoso é o ajuntamento dos santos! Quão maravilhoso é repetirmos no viver, a alegria do salmista que diz: “Alegrei-me quando disseram: Vamos à Casa do SENHOR”. A casa de Deus é o ajuntamento dos santos. Igreja é gente se abraçando; chorando; perdoando; sorrindo; acolhendo, sendo gente apesar das mazelas; sendo gente cuidando das mazelas uns dos outros, “… Até que todos cheguemos à estatura do homem perfeito…”.

“Não descuidemos a nossa participação na comunidade dos crentes, como muitos fazem. Pelo contrário, animemo-nos uns aos outros, tanto mais que vemos aproximar-se o grande momento da sua segunda vinda”. (Hebreus 10:25)

Em breve, continuarei esse assunto com mais profundidade.

Beijo santo aos santos,

// Fael Proskuneo //

Leia também: https://faelproskuneo.wordpress.com/2015/10/06/alegria-na-casa-do-pai-mas-onde-esta-a-casa-do-pai/